sexta-feira, 10 de maio de 2013

Aventureiros de ontem e de hoje


A aventura sempre foi um conceito muito presente na vida do homem. Mesmo que você esteja lendo este texto no conforto de um sofá e nunca tenha pisado no cume de uma montanha, navegado quilômetros num caiaque ou sequer feito um trekking de cinco ou seis quilômetros, saiba que sua vida deve muito ao espírito aventureiro da humanidade. Não fossem nossos ancestrais terem atravessado o estreito de Behring, entre a Rússia e o Alaska, há uns 10 mil anos – num trekking pré histórico casca grossa vários grau abaixo de zero – você não estaria lendo este texto. E, se Cabral não tivesse realizado a travessia do Atlântico Sul quinhentos anos antes de Amyr Klink, a história do Brasil seria diferente. Devemos muito aos aventureiros.



Mas tanto os hominídeos quanto os portugueses tinham lá, consciente ou inconscientemente, uma motivação econômica e, sob esse aspecto, o conceito mudou radicalmente. Há um século, a ideia de aventura como busca de riqueza já havia sido substituída por outra, relacionada à obtenção de reconhecimento. Em vez de ouro, especiarias ou novas terras buscava-se glória. Naqueles tempos, ser o primeiro a pisar num cume ou num ponto inóspito era questão de orgulho nacional, capaz de render várias honrarias. Foi nesse período que foram conquistados pela primeira vez o Polo Norte (1909), o Polo Sul (1911) e o Everest (1953). Primeiro homem a pisar no topo do Everest, o neozelandês Edmund Hillary foi nomeado sir pelo governo britânico e virou até estampa no dinheiro local em seu país. Para orgulho da rainha e de seus súditos, a maior montanha do mundo fora conquistada por um aventureiro originário de uma ex-colônia ainda com forte ligação com a Grã Bretanha.


Hillary Dólar da Nova Zelândia - à esquerda, há uma imagem do Everest

Mas a glória dos aventureiros cobrava seu preço. Muitos ficaram pelo caminho. O inglês Robert Scott esteve próximo de ser o primeiro a chegar no Polo Sul, mas acabou morrendo congelado juntamente com todo o grupo de sua expedição no retorno à base. Outro britânico, George Mallory, tem uma história igualmente trágica: ele teria atingido o pico do Everest em 1924, mas seu feito nunca foi comprovado, pois logo após a suposta conquista, Mallory sucumbiu diante das temperaturas baixíssimas e da altitude. Os equipamentos precários e a alimentação inadequada daqueles tempos, assim como a falta de um treinamento específico para os enormes esforços tiraram a vida de muitos dos postulantes à glória. Para se ter uma ideia, de 1922 até 1970, 28 escaladores chegaram no cume e 27 sucumbiram. Ou seja, a chance de morrer era de 50%!

Tudo isso evoluiu. GPS portáteis, roupas tecnológicas forradas com penas de ganso, tecidos que resistem às piores tormentas em alto mar, celulares capazes de fazer ligações e até de acessar o Facebook dos lugares mais remotos do Planeta mudaram mais uma vez o conceito de aventura. Os feitos mais memoráveis do início do século passado se tornaram acessíveis a qualquer ser humano mais ou menos em forma. Comparando com os dados anteriores sobre o Everest, em 2003, nada menos que 264 pessoas chegaram ao cume e apenas três morreram. O fator tecnologia é, portanto, indiscutível.

Este GPS da Garmin resiste à água, a impactos e possui uma câmera de 5 MP.

Mas se ficou tão mais fácil, o que, então, buscam os conquistadores do século XXI? Simplificando um pouco, a ideia, hoje, é a da aventura pela aventura. Busca-se ainda hoje a glória, mas de uma forma diferente. Nada de honrarias. Em tempos em que todos têm seus 15 minutos de fama, um vídeo no Youtube ou algumas fotos no Facebook são suficientes para conquistar o reconhecimento de algumas dezenas de amigos e simpatizantes. Mas não é só isso. Busca-se, também, um ativo não econômico de valor incomensurável nos dias de hoje: paz de espírito. Já os profissionais do ramo (gente como Amyr Klink, o corredor de aventura Rafael Campos e o escalador Rodrigo Raineri) lançam livros, vídeos, conquistam apoio de marcas ligadas ao mundo outdoor. Nas conquistas do século XXI, as condecorações da rainha foram substituídas pelo onipresente logo azul e vermelho da Red Bull.

Os aventureiros do passado não tinham acesso a isso:


 Heatgear - Aquece a água sozinho, sem precisar de fogareiro. Um litro de água fica quente em 15 minutos.

Gatorade mais Cebion é igual a...Suum! Uma pastilhazinha igual a um Cebion misturada com água faz um litro de isotônico.



Saco de dormir Marmot Plasma 15. Suporta até 26 graus negativos e pesa menos de um quilo.


Barraca Easton Kilo 3. Aguenta ventos de até 65 quilômetros por hora e pesa 1,3 quilo. Se tivesse uma dessas, Hillary teria vida mais fácil no Everest.



Assim como os produtos estrangeiros, os equipamentos nacionais evoluíram uma barbaridade. Mais baratos e com tecnologia que não fica em nada a dever para os gringos, eles são, hoje, uma excelente opção. Esta mochila da Kailash possui um sistema que permite a circulação de ar nas costas e conta com uma capa protetora, além de porta bastões. E mais: possui uma mochila menor, de ataque, acoplada. 


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Perrengues: por que gostamos deles?


O que leva alguém gostar de esportes outdoor? Ou o que leva algumas pessoas a se enfiarem em precárias barracas de lona durante madrugadas congelantes para, no dia seguinte, acordar cedo e encarar horas de tremendo esforço físico no alto de montanhas em que o risco de morte é real? Ou, em termos mais diretos, o que nos leva a trocar um final de semana no conforto de nossas casas ou num boteco por esses perrengues, nos expondo a riscos e gastando energia à toa? Sempre me pergunto isso quando estou saindo de casa rumo a uma trilha ou corrida de aventura.

No último final de semana, quando fomos para o Parque Nacional do Itatiaia, não foi diferente. Uma hora e meia de trânsito só pra sair de São Paulo e chegar na Ayrton Senna; mais quatro horas de estrada e, por fim, após estacionarmos na margem de uma estradinha de terra, uma hora e meia de caminhada por uma trilha estreita (e, em alguns trechos, em meio a brejo) na gélida madrugada da Mantiqueira e levando nas costas 10 quilos de equipamentos para chegarmos no Refúgio Agulhas Negras, nosso destino e onde montaríamos as barracas pra, no dia seguinte, às 7h da manhã, cairmos da cama para percorrer de volta toda a trilha e, na sequência, entrarmos no parque para subirmos rumo ao pico das agulhas negras.

Para entrar no parque do Itatiaia e atingir o pico de suas três principais montanhas (Agulhas Nergras, 2.790 metros; Morro do Couto, 2.680 metros, e Pico das Prateleiras 2.548 metros), é preciso, antes, preencher um documento com nomes e documentos dos integrantes do grupo que vai para a trilha e o horário de início da caminhada; no caso do Agulhas, o documento deixa bem claro que, se, até às 17 horas, o grupo não retornar, uma equipe de busca e resgate será acionada. Ou seja: embora conquistar esse cume seja considerado algo relativamente simples pelos mais experientes, não se trata, definitivamente, de um passeio no parque.



Placas avisando dos riscos de subir sem conhecer técnicas de escalada: não é um passeio no parque.

Documentação ok, passamos a portaria e iniciamos o percurso rumo às Agulhas. A trilha, em si, envolve três seções. A primeira consiste numa caminhada básica de uns dois quilômetros pela estrada de terra que corta o parque e dá acesso ao Abrigo Rebouças – um alojamento comunitário, com camas, fogão e banheiro e único local da parte alta do Parque em que é permitido acampar. Passado o abrigo, tem início o segundo trecho. Aqui, o caminho se transforma num single trek, uma trilha estreita e cercada por arbustos, mas ainda praticamente toda no plano. Aqui se atravessa, sobre pedras, uma pequena represa e um riacho de águas muito limpas e geladas, último ponto em que é possível abastecer os cantis – a água é totalmente potável. Por fim, chega-se ao terceiro trecho, o realmente desafiador. Aqui, começa o que os trilheiros chamam de ‘escalaminhada’, uma mistura de caminhada com algumas técnicas de escalada, que envolvem subir em rochas enormes, passar sobre gretas (buracos entre essas pedras gigantes) e, às vezes, superar paredes com o uso de cordas – mas sem equipamentos mais específicos de escalada, como cadeirinhas e freios de rapel. Essas passagens envolvem um pouco de força e algum grau de habilidade, mas são, em geral, transpostas facilmente por gente sem experiência em escalada, mas com algum preparo físico.

De qualquer forma, é aqui que os novatos se espantam e, em geral, praguejam contra todas as gerações de quem os levou até ali. Guias, amigos, marido, ninguém escapa. Diante do desafio de transpor uma rocha enorme passando bem ao lado de um abismo cuja queda, dezenas de metros abaixo, seria fatal, alguns xingam; outros vão em frente, as pernas e braços trêmulos diante do medo. A maioria chora e grita “Daqui eu não passo!”. Acreditem, já fui ao Itatiaia três vezes e testemunhei essa cena em duas ocasiões – 66% das vezes, portanto. Mas, passada a crise, a maioria vence os próprios instintos e segue montanha acima para, depois de mais um sem número de promessas de nunca mais voltar, atingir o cume.

Chegar lá em cima, não importa quantas vezes já se tenha feito isso, é uma sensação única. Envolve sentimentos de conquista, de realização e de paz. No topo de uma montanha, o único som que se ouve é o do vento (bem forte, diga-se) e o que se enxerga é o horizonte, bem longe. No caso do Pico das Agulhas Negras, pode se avistar a via Dutra, o vale do Paraíba e, mais além, a Serra da Bocaina, que dá para o litoral de Paraty e Angra dos Reis. Do outro lado do pico, avista-se o Vale do Aiuruoca, no Sul de Minas Gerais. Vista de 360 graus.



No cume com a Renata

Ficamos mais ou menos meia hora no cume das Agulhas Negras (prá quem tem curiosidade, a área do pico é equivalente à de uma sala pequena). Comemos, tiramos fotos e nos divertimos com as histórias que sempre surgem durante a subida. Acima de tudo, contemplamos aquele visual espetacular. Depois, encaramos os mesmos desafios (mas mais confiantes) para fazer o caminho de volta e, às 09h da noite, chegarmos no abrigo, tomarmos um merecido banho gelado e uma cachaça tipicamente mineira e dormirmos em nossas quase congeladas barracas.


















Vista do Pico das Agulhas Negras

Tenho consciência de que uma história como essa pode soar como a maior das aventuras pra quem não é do ramo, mas de que não se trata, absolutamente, de algo inédito ou digno de nota. O mundo está cheio de aventureiros de verdade, gente que encara desafios como subir o K2 (a montanha mais perigosa do mundo, onde corpos congelados dos escaladores mortos no caminho jazem, como testemunho de seus riscos), atravessar a Passagem de Drake (o mar entre Argentina e a Antártida, conhecido pelas piores condições climáticas do mundo) num caiaque ou cruzar o deserto do Saara numa bicicleta.

Tenho consciência, também, da complexidade de se explicar a fascinação que esse tipo de atividade nos exerce. Como diz John Krakauer no livro Sobre homens e montanhas, o que leva alguém a escalar montanhas é algo que a maioria das pessoas que não faz parte do mundo dos montanhistas tem dificuldade para entender – se é que entende. Para mim, são esses breves momentos de conquista, reflexão e paz que justificam nossos pequenos-grandes perrengues.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Boston, 15 de abril


 A maratona de Boston não é uma prova qualquer. Pra começo de conversa, é uma das mais antigas do mundo. Tem 117 anos – pra efeito de comparação, a nossa tradicionalíssima São Silvestre tem 88. Além do mais, não é, literalmente, pra qualquer um. Para estar lá, é preciso ter um tempo mínimo classificatório - diferentemente de outras maratonas célebres, como Nova York, Paris e Berlim. Para os homens de 18 a 24 anos, por exemplo, esse tempo é hoje de três horas e cinco minutos. Quem tem familiaridade com o mundo das corridas sabe que correr uma maratona em menos de quatro horas não é trivial (tanto que existe a expressão ‘fazer uma maratona sub 4’), quanto mais em três. Por isso, o mundo das corridas olha pra essa prova com um carinho especial.

Por esses e por outros tantos motivos, os atentados ocorridos na última segunda-feira chocam. Eles acertaram em cheio um esporte carregado de simbologia. A corrida é, por definição, a modalidade mais democrática que existe; por mais que sejam alardeadas as qualidades de tênis que são a última palavra em amortecimento ou de cronômetros high tech supercaros, o que vale mesmo é a dedicação. Um par de tênis simples e uma boa dose de força de vontade são o suficiente pra botar o pé na estrada. E nisso, a corrida iguala a todos. Que outro esporte faria campeões atletas vindos de do chamado ‘Chifre da África’ (como Etiópia e Eritreia), a região mais miserável do mundo? 

A maratona também fascina porque tem em seu DNA a superação. Sua origem, diz a lenda, foi a jornada do soldado grego Filípides (ou Fidípides), que correu os 40 quilômetros entre as cidades de Maratona e Atenas para noticiar a vitória dos helenos sobre os persas. Ao concluir a jornada, anunciou: “vencemos” e morreu, extenuado pelo cansaço. Imaginem as condições de correr 40 quilômetros 2.500 anos atrás. Desde então, o termo maratona passou a integrar toda expressão que envolva uma quantidade absurda de coisas pra fazer: “Assistir uma maratona de jogos”, “encarar uma maratona de reuniões”, e por aí vai. E pense na quantidade de filmes, livros e até videoclipes carregados de clichês já produzidos sobre corridas e suas histórias de superação.

Por fim, correr é um ato de celebração. Celebrar a perda de uns quilos, o abandono do hábito de fumar ou, simplesmente, celebrar o momento, sem um motivo especialmente importante que não o de estar no meio de uma multidão de 10, 20 mil pessoas de diferentes idades, classes, religiões – como se isso, aliás, não fosse, por si, um motivo para celebrar. A São Silvestre é especialmente representativa do ato de celebração: paulistas, cariocas, nordestinos, caipiras, gays, roqueiros, são paulinos, corinthianos e quenianos, todo mundo junto numa vibração positiva por mais um ano que começa.

E nesse quesito os americanos são insuperáveis. Nova York, Chicago e...Boston, fazem de suas maratonas grandes celebrações. Mas eles também são insuperáveis quando se trata de juntar todo mundo na tragédia, meter a mão na massa e dar a volta por cima. No ano passado, quando o furacão Sandy provocou o cancelamento da maratona de Nova York, centenas de corredores nada resignados foram ao Central Park, local da chegada, e correram os 42 quilômetros correspondentes à distância da prova. De quebra, doaram agasalhos e alimentos às vítimas da tempestade. É essa força de reação que, tenho certeza, eles mostrarão agora. 

domingo, 9 de maio de 2010

Dia das mães

Caros. Resolvi, depois de meses sem postar nada neste blog, romper o silêncio. Os dias andam bicudos, o tempo é escasso, mas considero esta uma boa oportunidade pra iniciar, aos poucos, uma reconquista deste espaço. O que vai a seguir é nada menos que uma carta que meu vô, seu Hélio Corrêa, escreveu prá mãe dele em 1938 - há 72 anos, portanto. É, também, uma forma de imortalizar seus escritos. A letra é miúda e bem desenhada e o texto guarda um pouco do formalismo da época e do carinho que meu vô sempre devotou à familia. Minha bisavó, Etelvina Spirandelli, faleceu poucos anos depois, 40 dias depois do nascimento do filho mais novo, meu tio Mário. A carta:

Querida mamãe

Sendo hoje o dia destinados as (SIC) mães, venho eu também prestar a minha pequena homenagem à minha grande mãesinha (SIC).

Desejo que Deus a conserve por muito tempo para na alegria nossa, de papai e de meus irmãos.

A senhora Voce é tudo neste lar, minha mãe. Sem o seu carinho, desvelo, consolo, conforto, amparo e guia que seriamos nos?

Quanto desassocego (SIC), insônia lhe demos quando pequeninos e hoje quanta preocupação lhe damos ainda.

Poré, prometo mamãe, no dia de hoje quer será melhor, serei obediente, estudarei para obter o diploma a fim de que possa um dia ajudá-la.

Nunca poderei pagar os sacrificios que faz por mim, porque nada neste mundo poderá recompensá-la pelo que passou mas deseja que eu seja bem siga o caminho do bem assim farei.

Derrame suas bênções (SIC) sobre o filho que a beija respeitosamente..Hélio

Botucatu, 08 de outubro de 1938.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Amigos. Modifiquei um pouco a lista de links aqui ao lado. O objetivo foi organizar um pouco mais o espaço (criei uma área com links na área de esportes), acrescentar indicações de sites e blogs mais inteligentes e limar aqueles que estavam sem atualização há mais tempo - quase como este escrevinhador, que às vezes fica bastante tempo sem dar as caras, mas mantém este espaço mais ou menos atualizado. Entre as novidades, recomendo o blog do Sakamoto e o do Mauro Segura. Cliquem e atualizem-se.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Meu 04 de julho (Parte III) - Devaneios

A reação imediata de qualquer corredor amador que, de repente, se veja pela primeira vez liderando uma corrida - mesmo que seja de quatro quilômetros, como no meu caso - deve ser a de olhar pra trás. Foi o que fiz. Na hora. Estava uns 50 metros na frente, pelos meus cálculos, do segundo colocado. A segunda reação deve ser uma pergunta: "Será que, com uma diferença dessas ele me alcança?". Acelerei. Acreditem, não parei nem pra fazer xixi; improvisei um, digamos, alívio imediato em movimento numa curva, quando o atleta que vinha logo atrás não me enxergava.

A parte mais curiosa dessa história talvez seja a de que, a partir do momento em que me dei conta de que poderia vencer, uma série de coisas me começou a passar pela cabeça. Nesses seis anos em que me dedico à nobre e exigente arte das corridas, tive de me desdobrar pra aguentar o tédio dos treinos mais longos. Um dos principais corolários entre os praticantes desse esporte é o de que corrida é 90% de cabeça e 10% de físico. Em Botucatu, treinando no acostamento de uma rodovia, me imaginava cruzando a reta final imitando o 'aviãozinho' do Vanderlei Cordeiro de Lima nas Olimpiadas de Atenas; ou segurando uma bandeira acima da cabeça com as duas mãos, como se fosse a capa do Super Homem, gesto de Franck Caldeira no Pan do Rio. Socos no ar, como os de Pelé, punhos cerrados, tapas no peito, como Cesar Ciello. A comemoração pelo primeiro lugar comportava um sem número de gestos; e a solidão dos treinamentos me impelira a esses devaneios.

Olhei pra traz e calculei que, a essa altura, minha distância pro segundo colocado aumentara para uns 100 metros. Mas logo à frente havia uma subida mais forte. Mil metros, mais ou menos, me separavam da linha de chegada. Como sabia que, nessas circunstâncias, a velocidade obrigatoriamente diminui, resolvi imprimir o ritmo mais forte que aguentasse. Essa estratégia comportava três desfechos: (1) abriria uma vantagem ainda maior que me garantiria a folga para cruzar a linha de chegada correndo de costas; (2) manteria a mesma distância na ladeira e teria de me virar na reta final pra sustentar a liderança contra um eventual ataque e (3 - mais provável) perderia o primeiro lugar até o final dessa reta e não teria gás pra atacar o oponente na reta de chegada.

Pra minha surpresa, a distância aumentou. Entrei na reta confiante, já ensaiando os gestos. Nada de fita pra ser rompida, nada de torcedores, nada de repórteres me assediando, como eu sempre imaginara; a chegada era, mesmo, numa lombada. Diego, o organizador, grita por um megafone: "E lá vem o primeiro lugar dos quatro quilômetros. É número sete". Mesmo sem pirotecnia e oba-oba, cerro os punhos e imito o aviãozinho. "Ganhei, p* Ganhei!!!!".

Descobri, logo depois, que a premiação se restringia a uma medalha - a mesma entregue a todos os que concluiram a prova. Mesmo assim, naquele dia voltei pra casa com uma alegria infantil de ter sido Vanderlei Cordeiro de Lima, Franck Caldeira e Cesar Cielo.

domingo, 26 de julho de 2009

Meu 04 de julho (Parte II)

Sou brasileiro, não desisto nunca. Vamos à história novamente, torcendo pra que o Blog não delete tudo.

A supra-citada Santana de Parnaiba é uma cidadeinha histórica às margens do Tietê há uns 30 quilômetros de São Paulo. Hoje espumoso e fedorento, o rio servia, 400 anos atrás, como estrada pros bandeirantes desbravarem o sertão do País. Mas o que importa nessa história é que, na parte alta do município, fica um condomínio chique chamado Aldeia da Serra. O trajeto Santana-Aldeia é feito, quase todo, via estrada de terra. São apenas oito quilômetros, mas num terreno montanhoso. Da estrada, da pra enxergar um longo e interminável mar de morros. No final, chegando no condomínio, a trilha dá lugar a um trecho curto de asfalto. É justamente nessa parte da estrada que seria realizada a corrida.

Má e eu chegamos lá por volta das 08h. De longe, era possível reconhecer, diante de uma padaria super incrementada um aglomerado com os cerca de 100 malucos que haviam madrugado em pleno sábado pra enfrentar a corrida naquele frio. Todos vestidos com a discretíssima camiseta de manga longa oficial do evento, na tonalidade laranja-cebion. Diego Lopes, o organizador, logo fez sinal para que interrompessem o burburinho e transmitiu as últimas instruções. "Isto não é uma corrida oficial" - foi logo avisando. "É uma confraternização de amigos".

Sem o glamour e o oba-oba característico da maioria das corridas de rua de São Paulo, o pórtico de largada, por exemplo, fora 'substituído' por uma lombada numa das ruas do condomínio; assim que passássemos por ela, poderíamos, digamos assim, considerar que o certame havia começado oficialmente. Da mesma forma, como não havia uma interdição oficial da estrada, teríamos de correr numa longa fila indiana, evitando os emparelhamentos. Ah: o pelotão que correria a prova de oito quilômetros encararia um trecho de estrada de terra; os demais (quatro quilômetros) teriam pela frente apenas asfalto. "Atentem pra isso", gritou diego. Mais algumas instruções e três, dois, um. Já!

Largamos. Sem perda de tempo, acelero o passo e ligo meu velho companheiro iPod, o mesmo com qual corri a S. Silvestre 2007 (o post está neste mesmo blog). Confesso que, desta vez, a trilha sonora era Bon Jovi. No volume máximo, ele canta "Give me something for the pain...give me something for the blues..." (em português, seria algo como "Me dê algo contra a dor, mê dê algo contra a tristeza..."). Bon Jovi sempre foi chamado de poser, rock fabricado, etc. Mas admito que, mesmo nos tempos em que o Iron Maiden não saia do meu toca fitas, sempre gostei das baladinhas dele. Sendo assim, e diante das circunstâncias, me servia perfeitamente, distraindo a cabeça enquanto, sem perceber, eu acelerava mais e colava no pelotão da frente, o dos corredores que fariam oito quilômetros, seguindo no mesmo passo.

Uns quinhentos metros depois da largada, a reta na qual iniciamos a corrida se transformava numa enorme ladeira, seguida por uma subida íngreme. Na minha frente, um rapaz meio gordinho usando gorro começa a se distanciar; nesse instante, algo em minha cabeça alerta: melhor controlar meu ritmo e não acompanhá-lo, poupando, assim, energia preciosa e necessária pro subidão seguinte. Mas, em vez disso, acelero, descendo num ritmo forte. Ultrapasso-o bem no final da descida, pra, no momento seguinte, levar o troco. Na subida, pra minha surpresa, mantenho-me mais ou menos próximo desse corredor, que também surpreendentemente, segue em ritmo forte.

Nesse mesmo ritmo, sigo no grupo mais adiantado. De repente, começa a estrada de terra.

Epa! Paro de repente, deixando os demais se distanciarem.

"Moço! Moço! onde é que o pessoal dos quatro ká tem de retornar?" - grito.

"É aqui atrás, na rotatória. Você tem de voltar", responde ele.

Sem perda de tempo, volto faço o retorno, atravessando quase que pelo meio da rotatória. Dois atletas que até então estavam bem distanciados, a esse altura iniciam a rotatória. Nesse momento, me dou conta de que não havia cruzado com nenhum competidor em sentido contrario até chegar na rotatória, o ponto a partir do qual iniciariamos o retorno. Conclusão: estava em primeiro. "Pqp*, tô na frente", pensei. "Pqp!"

Continua - To be continued.